terça-feira, 12 de agosto de 2008

Revolution. Ep. 6: Tempo.

Três da manhã.
Ele estava andando pela rua, sozinho, quieto, até que uma luz, a última luz que ele viu.
-Ele não esta bem...
-Estamos perdendo...
Palavras ao vento, sons, ruidos, vozes distantes... Ranyel não ouvia muita coisa, luzes fortes, dores, sangue.
-E ele rebate!
Ranyel abre um olho apenas, uma tv ligada em um canal de esportes, era tudo o que ele via.
Sons estranhos ecoavam pelo local onde ele estava, tubos, dores, e um lençol branco.
- O que diabos estou fazendo aqui? Disse ele com a voz tremula e rouca.
- Oi. Ecoou uma voz ao seu lado.
Ele vira devagar sua cabeça, latejante, para observar quem estava ao seu lado.
A forte luz do quarto e a visão enuveada fizeram com que ele demorasse a reconhecer.
- Sou eu.
Após coçar um pouco os olhos, ele percebe um rapaz magro, alto e de cabelos longos e cacheados.
-Luciano?
-Sim, eu mesmo.
-Onde diabos eu estou?
-Não se lembra?
-Eu vi uma luz, e só.
-Você sofreu um acidente de carro.
-Bem que me alertaram, 'se vir a luz, corra!' não achei que fosse verdade, a morte dói mesmo!
-Mas você ainda não morreu.
-Bom, nada é perfeito.
Luciano puxa um banco alto e se senta ao lado da cama de Ranyel.
-Então, ao que devo a honra de tão ilustre visita?
-Não se recorda?
-Não.
-Eu estava com você na lanchonete.
-E?
-E você tantou me dizer alguma coisa, mas saiu andando antes.
-E aí o carro me pegou... segredinho ruim hein.
Luciano ri de canto de boca.
Trovôes podiam ser ouvidos do lado de fora do quarto do hospital.
Ranyel recosta sua cabeça no travesseiro, e começa a observar uma fina garoa molhando o vidro da janela.
-Chuva.
-É como chamam em meu país.
-Porque veio aqui?
-Eu não podia deixar de vir.
-Porque?
-Porque eu o vi.
Ranyel continu a olhar para a janela, tentando não olhar Luciano nos olhos.
-Desde que horas estou desacordado?
-Desde ontem, fazem 24 horas.
-E você ficou aqui?
-Todo o tempo.
-Como você é idiota!
Luciano novamente ri um pouco, não esperaria outra reação, vindo de quem veio.
Ele pega alguns cartões que estavam em uma mesia ao seu lado.
-Seus amigos te mandaram isso.
-Jogue fora.
-Porque?
-Que dia é hoje?
-Sabado.
-Festa eletrônica.
-Pelo jeito você não perdeu a memória.
-E eu não tenho amigos, só... cartões. Diz ele olhando para Luciano. -Perde-se o amigo mas não se perde a balada, bem a cara deles.
-Eles te amam.
-É... e eu amo Ronnie James Dio. Sabe, é engraçado como as coisas são, passei o ultimo mês encontrando pessoas, desenterrando defuntos e olhe só! Sou quase um! Faça o seguinte, guarde as compaixões em papel no lixo e a sua loucura pra você, eu já tenho o suficiente.
-Todo mundo precisa de alguém.
-Eu não sou todo mundo.
Ranyel começa a passar os dedos entre algumas mechas do cabelo de Luciano.
-Seu cabelo esta bonito hoje.
-Nossa... será que eu ouvi um elogio?
-É uma praga, semana que vem ele cai.
Os doi começam a rir.
-É, faz um bom tempo que não o vejo sorrir.
-São tão infimos os motivos, que nem compensa rir mais.
-Isso é falta de amor e amigos.
-Amor... a quanto tempo não me dou ao luxo de sentir isso.
-A quem você esta querendo enganar?
-Não sei, talvez a mim mesmo.
-Uma quase morte faz milagres.
-Eu estava descordado, mas eu estava em um lugar... bonito até... onde me sentia bem, lá não tinha dor, não tinha solidão, não tinha esse maldito futebol e nem chovia.
Luciano se vira para a janela e observa a chuva.
-Porque você teme tanto a chuva?
Ranyel olha para a janela.
-A nove anos... era novembro.
Luciano olha atento à Ranyel.
-Eu vivia um conto de fadas, eu era... feliz.
-Como ele se chamava?
-Não importa... namoramos cinco anos, uma vida ótima, apesar de ser escondido, até que uma noite nós brigamos... ele colocou cinco pessoas em um carro e sairam... e nunca mais voltaram.
Luciano continua a olhar atento.
-Chovia forte aquela noite, eu acordei angustiado... e pela manhã a noticia chegou... depois disso, nunca mais aceitei a chuva.
-Eu... eu sinto muito.
-É, todos sentem.
-Todo mundo tem uma história triste para contar.
-Nem todo mundo, existem pessoas com histórias lindas para contar, histórias em acampamentos, com amigos verdadeiros e cachorro quente, histórias belas repletas de alegria, cachorro quente e amigos em volta da figueira, com rock n roll e muita paz, claro, ninguem neste quarto, porque não os invejamos por serem felizes, mas sim pelo fato de tudo acontecer tão facil para os outros do que para nós.
-Não é bem assim.
-Não é? Certo, então pode sair e ir a baladinha com as pessoas que você mais gosta, lá estão eles, felizes, com facas prontas para enfiar em suas costas, assim como aquela mocinha que você diuz namorar, que esta com sua amiga lá agora, enquanto você esta aqui, perdendo seu tempo.
-Eu não estou perdendo meu tempo.
-Você nunca foi meu amigo, nos conheçemos do nada, mal nos falavamos, nos viamos uma ves a cada quinze dias numa lanchonete qualquer, nunca fez questão de sequer perguntar 'nossa, como você esta hoje?'
Luciano desvia o olhar, transtornado com o que acabara de ouvir.
Ranyel se ajeita na cama, esperando uma reação qualquer.
-Você nunca se permitiu a novas amizades.
-E porque deveria, as unicas coisas que sei de sua vida é que você faz faculdade e toca em uma banda, e mais nada.
-Quer que eu ligue para alguém?
-Eles não vão escutar o telefone tocando.
-Porque você é assim?
-Depois de um ano, resolvi continuar a viver minha vidinha, as lembranças ainda eram fortes, não sabia se iria aguentar, então nada melhor do que...
-Fuga.
-Em termos, sim. A verdade veio a tona, amigos de infancia sabiam de tudo, e eu já não servia mais pra fazer parte da 'turminha', eu era uma vergonha, um impecilio, e um a um, todos foram se afastando, fazendo festinhas, das quais meu nome er a o primeiro a ser excluido da lista.
-Auto-piedade?
-Viado é legal, é divertido, mas ninguem quer ser amigo de um né? Cinema, cervejada, companheirismo, conselhos... afinal, o que dizer pro amigos quando perguntam? eles foram crescendo, casando, tendo filhos, vivendo suas vidas, um ciclo natural, natural até demais.
-É... dificil mesmo.
-Conheci umas pessoas diferentes, pensei que eles sim me entenderiam, estava enganado... poucos meses após, estava eu lá, roubando coisas de casa, vendendo roupas... er aum vicio quye tinha que ser suprido de qualquer forma.
-Maus amigos... e não restou nenhum?
-Seis anos após aquela noite chuvosa, me permiti amar de novo, um cara aparentemente legal, bonito, conversava bem, daquele tipo que se apaixona rapido... mas ele acabou namorando pouco tempo uma amiga minha, coniviva com isso, era normal... até que uma noite eu o vi entrando dentro de um ônibus, voltando para sua cidade natal.
-E?
-E que não demorou pra mim saber, mediante a uma bebedeira qualquer, que meu 'melhor amigo' era quem saia com ele... um caso que durou alguns meses. Ele levava cigarro, bebida, dinheiro para o cara... sua 'putinha' de luxo. E sabe o que é pior?
-O que?
-Esse meu amigo sabia que eu já tinha me declarado pra ele... e não me contou nada, resolveu deixar tudo em segredo, vim a saber uma no após ele ter ido embora.
Luciano nada disse.
-E por aí fui vivendo... servindo de escada, pombo correio, ombro amigo...
Luciano se levanta e vai até a janela.
-E porque você nunca revelou isso a ninguem?
-E porque revelaria? seres humanos são uma raça despresível, homofóbicos, falsos... não há mão que te tire do buraco, só pés pra te empurrar pro fundo... passei a odiar a todos, resolvi não ter mais sentimentos, não amar mais, ser excluso de tudo, e sabe de uma coisa? Foi muito bom!
-Então quer dizer que ninguém é confiavel para você.
-Não... cansei de tentar falar, e ao ives d eouvidos, apenas olhos que correm para todos os lados, olhos que dizem 'nossa, essa ladainha!', olhos que não prestam atenção em mim, olhos que correm... cansei de receber telefonemas noturnos de garotas que brigam com namorados, cansei de ser cumplice, cansei de ver amigos que juram tudo e por uma pessoa qualquer que entra em suas vidas, acabam me deixando de canto, como se eu virasse um objeto sem utilidade na estante.
-É impossivel não ter amor nesse coração!
-Pois pode acreditar, já não existe e faz tempo! A felicidad alheia me deixa... irado.
-E porque afinal, você esta me dizendo tudo isso?
-Porque seus olhos não correram, sabe-se lá se é por dó, pena ou apenas é um estranho que teve cinco minutos de sua mediocre vida pra ouvir um estranho, pode ficar feliz, seu tijolinho no céu esta garantido.
-Ontem, na lanchonete, você queria me dizer algo, me confessar algo, o que seria?
-Não me lembro o que seria.
-Era relacionado a você se declarar.
-Não me recordo mesmo, nossa... quanto tempo que não faço isso...
-Então quer dizer que esse coração não é tão duro quanto eu imagino.
-Sabe qual a diferença entre você amar e eu amar?
-Qual?
-Você recebe, no máximo, um não! e recebo no minimo, um soco na boca... nenhum homen se sente honrado de uma pessoa, seja lá qual for, diga que te ama, fomos criados num machismo sem tamanho, numa época onde o amor próprio não existe, a amor para com o outro é zombaria, então, ao invés de no intimo, se sentir bem, lisonjeado, por pelo menos alguem dizer que te ama, por mais que você não 'curte a fruta', prefere fazer o que deixa os outros com orgulho.
Neste momento, uma enfermeira entra no quarto.
-Como se sente?
-Tentando lutar pela minha vida.
-O horário de vistas acabou.
-Bom, valeu pelo papo, acho que já vou indo.
-Se quiser, não precisa voltar viu!
Ranyel pega os cartões que estavam ao lado se sua cama, olha para eles, e os rasga, jogando no lixo ao lado de sua cama.
Luciano sai do quarto rindo baixo, fecha a porta devagar, da dois pasos e volta a olhar para a porta.
-Eu me senti honrado, com certeza.

The End.

Um comentário:

Mary Dorateotto disse...

"Você recebe, no máximo, um não! e recebo no minimo, um soco na boca... nenhum homen se sente honrado de uma pessoa, seja lá qual for, diga que te ama, fomos criados num machismo sem tamanho, numa época onde o amor próprio não existe, a amor para com o outro é zombaria, então, ao invés de no intimo, se sentir bem, lisonjeado, por pelo menos alguem dizer que te ama, por mais que você não 'curte a fruta', prefere fazer o que deixa os outros com orgulho."

Thunder do céu...que lindo! Tão cheio de sentimentos,tão humano e sensivel,critíco e triste...puro e que leva o leitor a uma profunda reflexão sobre MUITA coisa.Lindo!Lindo!Lindo!

P.s:Aaaah não precisava agradecer pelo post no meu blog,ele foi feito simplismente de coração não para ser agradecido ^^

P.s.2:Vou tentar add seu blog lá no meu vio.