Ranyel termina de tomar seu copo de bebida, ainda sentado ao sofá, os canais da tv não agradavam em nada, ainda mais altas horas da madrugada.
Na mesa de centro da sala, a garrafa de bebida já estava vazia.
- Droga... Sussurra a si mesmo.
Atrás da porta, ele pega o casaco e, sem pensar, sai à procura de algum bar.
Passo após passo, Ranyel apenas consegue ver, nada nítido, as luzes de uma lanchonete, a mesma de sempre, a única que ele frequentava.
Sem expressar a menor educação ao fazer seu pedido, ele rapidamente sai do estabelecimento, e logo começa a andar, sem rumo.
Um cigarro após o outro, um passo após o outro, ele rezava para que não encontrasse ninguém pela rua, se possivel, um mendigo qualquer querendo um cigarro, um garoto de programa qualquer, menos algum conhecido.
- Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece! Exclama ele ao ver Luciano, parado, fumando um ultimo cigarro, frente à sua casa.
- Ranyel, que surpresa...
- Não é não.
- Já bebeu o suficiente?
- É... ainda faltam mais 250 mls, aí esta tudo beleza. - diz ele, com um sorriso irônico nos lábios - Parece que ninguém descobriu ainda que você fuma.
- É... pelo jeito não.
- Você está...
- Estou?
- Sei lá, lindo hoje.
Ranyel olha para o chão ao elogiar o amigo, tanto por timidez, quanto por insegurança.
Lucioano ri um pouco, suspira um pouco e e toma um gole da bebida de Ranyel.
- Será que eu ouvi um elogio? Será? - Ele ri.
- Não dizem que eu não tenho papas na lingua, estou bebado, esta frio e são quase cinco da manhã, não espere mais, daqui pra frente, só vou piorar.
- Eu estava em uma festa.
- É... eu sei.
Luciano abaixa a cabeça, como se houvesse cometido uma gafe contando aquilo.
Ranyel começa a fitar Luciano de cima abaixo, repara no casaco, na calça e até mesmo no cabelo, um tanto bagunçado.
A atenção dos dois é cortada por uma brusca freada de um carro.
- Eiiiiiiiiiiii! Audrey grita de dentro do carro.
- Meu Deus, só pode ser praga, mais uma a essas horas! onde estão as prostitutas e os assaltantes?
Audrey sai do carro com dificuldades, aparentava estar bem alcoolizada.
- Pode parar Ranyel, seu mau-humor não pode acabar com o restinho da minha noite!
- Já sei, as seis você vira abóbora?
Ela faz careta para ele, Luciano ri baixo enquanto ela bebia goles e goles da bebida.
- Eu tive uma noite mágica com meu amorzinho!
- Aquele que te meteu um chifre?
- Pare de dar pitaco na minha vida, ouviu. Diz ela, quase caindo no colo de Ranyel.
Após conseguir se recompor em pé, Audrey acena para os dois, entra no carro e sai acelerando.
- É, pelo jeito ela está feliz mesmo. Comenta Luciano.
- Você quer namorar ainda? Imagina uma louca dessas.
- Aliás, como é namorar?
Ranyel se espanta com a pergunta de Luciano.
- Porque eu deveria saber?
- Não sei... eu nunca namorei, e tem uma garota que eu estou gostando muito, quem sabe...
Ranyel olha para a rua e ascende outro cigarro.
- Eu... eu choro todas as noites antes de dormir, sou mau-humorado, tenho baixa auto-estima, me acho ridículo, chato e sem assunto... acho que eu não sou a pessoa mais apropriada para lhe responder isso.
- Você deveria se ridicularizar menos.
Ranyel faz cara de pouco caso.
- Eu sei como sou, tenho espelho em casa.
- Eu achei legal você me elogoiar agora de pouco.
- Elogios vão.... e vão... e vão...
- E nunca voltam?
Ranyel olha para a rua novamente.
- Eu te acho um bom amigo... apesar de tudo.
- Eu não tenho amigos.
Luciano olha para cima.
- Sabe, você deveria mudar um pouco.
- Ninguém muda. E eu já me cansei de tentar ser alguma coisa que não sou, e mesmo assim não dar em nada, me prefiro assim... ao menos não sou hipocrita.
- Eu... eu odeio quando você tem respostas para tudo! odeio!
- E eu acho linda essa sua cara de bravo.
- Você já namorou... deveria ser mais... feliz.
Ranyel olha para as flores de uma arvore, na mesma calçada em que eles estavam.
- Dama da noite. Comenta Luciano.
- Percebeu que elas só cheiram durante a noite?
- E daí?
- E dái que, como as damas da noite recolhem seu perfume com a chegada de um novo dia, partirei sem um breve adeus e sem dar-lhe uma breve esperança de voltar a me ver.
Ranyel começa a caminhar.
- Foi algo que eu disse?
- Não, como sempre, é algo que eu faço.
- Vou te visitar qualquer dia.
- Não se atreva, a menos que queira passar a noite na minha porta, mesmo sabendo que estou lá.
Luciano continua a observar Ranyel indo embora, passo após passo, sem olhar para trás. Enquanto caminhava até uma lixeira bem à sua frente, ele olhou alguns segundos para a garrafa de bebida, lembrando-se de como Ranyel era contido, alegre e bem humorado, ao menos era a impressão que ele transparecia, escondendo o que realmente sentia, para ajudar a quem precisasse.
- Vai com Deus meu amigo. Diz ele olhando para a calçada, já sem a imagem de Ranyel caminhando por ela.
Sentado em seu sofá, Ranyel olhava para uma foto, pequena, e ao seu lado, uma caixa empoeirada, contando alguns retratos antigos.
- Porque? Pensou ele consigo mesmo.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
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